Conheça o que é Antropologia do Consumo

Conheça o que é Antropologia do Consumo

Diante da dificuldade das empresas de entender, prever e se antecipar ao comportamento do consumidor, a antropologia – ciência que estuda o homem – está cada vez mais em alta no mundo dos negócios.

A antropologia auxilia na compreensão de toda a sociabilidade contemporânea. O estudo dos processos de consumo abre possibilidades para lançar novos olhares sobre a motivação do homem no trabalho, os significados que ele cria para a sua vida, a forma como percebe as ameaças, sua fragilidade no caos urbano, o modo como busca inserção social, reconhecimento, prestígio, e até mesmo como se manifesta politicamente por meio de atos de consumo.

O consumo vai muito além da mera compra de produtos e serviços. É um processo que nos identifica no mundo a partir das escolhas que fazemos e que expressam nossos gostos e estilo de vida.

ANTROPOLOGIA DO CONSUMO

Começou a ser estudada na década de 70. Quem deu esse nome foi a antropóloga inglesa Mary Douglas no livro “O mundo dos bens, para uma antropologia do consumo”, onde ela começa a tentar entender o consumo como um fenômeno cultural.

A antropologia do consumo se encarrega no estudo aprofundado do porque agimos de determinada forma, ou tomamos certos produtos e serviços como bons ou ruins, etc. Investiga as práticas e representações do consumidor contemporâneo, peça central na sociedade em que vivemos, a sociedade de consumo.

“A Antropologia do Consumo surge como uma linha de pesquisa que nos dá indícios sobre quem somos, como pensamos, como nos comportamos e o que faz sentido em nosso próprio contexto. Consumir é mais que possuir, é se identificar com emoções, sensações e experiências que vivemos através de produtos, serviços, eventos e momentos”.

PESQUISA DE HILAINE YACCOUB

Hilaine Yaccoub é doutora (PhD) em Antropologia do Consumo (UFF- RJ), Mestre em Antropologia do Consumo (UFF- RJ), pós graduada em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais (ENCE-IBGE) e formada em ciências sociais (UFRJ).

Para sua tese de doutorado, Hilaine viveu mais três anos na Barreira do Vasco, favela de cerca de 7 mil residências na zona portuária do Rio. Virou parte da comunidade e passou a entender como poucos, a lógica e as escolhas de quem tem pouco dinheiro e não pode contar com o Estado.

Ela viu a necessidade de estar naquela localidade o maior tempo possível para acompanhar as situações sociais que ocorriam ali. Assim, durante todo esse período, alugou três casas, em diferentes áreas, com o objetivo compreender o melhor possível as dinâmicas locais.

Confira esse artigo da Hilaine Yaccoub, publicado em dezembro de 2017
Fonte: Consumidor Moderno

 

A ECONOMIA COMPARTILHADA TAMBÉM ESTÁ NA FAVELA E NA PERIFERIA

Antes da pesquisa de campo para o doutoramento, eu era uma estudante de Antropologia convencida de que o problema da favela se resolvia plenamente no âmbito dos estudos urbanos, das teorias antropológicas voltadas para as sociedades complexas, geralmente vinculadas à questão da pobreza em contextos de desigualdade. Eram aglomerados que, apesar de complexos e urbanizados, sofriam com os estigmas relacionados às falhas do “desenvolvimento e progresso”.

Sem desmerecer esta abordagem e todos os frutos que ela produziu no âmbito dos estudos urbanos recentes, não pude deixar de observar, como “moradora de favela” – sim, eu fui morar lá – que a exclusividade desta perspectiva obscurecia aspectos que diziam respeito à riqueza e à singularidade positiva das relações sociais que ali ocorrem.

Em dado momento, pareceu-me que a favela ou periferia (como se diz em São Paulo) não poderia ser explicada somente a partir da pobreza, da falta, da carência e da precarização – neste ponto, discordo da categoria “sobrevivência” por ser um termo carregado de implicações sociológicas de carência – ou, então, pelo viés da ilegalidade e da informalidade.

Ao contrário, sob vários aspectos que pude constatar, a favela apresenta expressões sociais que, apesar de informais ou ainda não legitimadas pelas instituições estatais, estão cada vez mais afinadas com a vanguarda do pensamento social e econômico contemporâneo.

Ou seja, de muitas maneiras, sem mesmo ter consciência do seu estilo de vida calcado nas “sustentabilidades” – social, econômica, ambiental etc, – o moradores da favela já ultrapassaram e superaram dilemas da própria sociedade.

Esta, por sua vez, continua a compreendê-la como um “problema social”, anunciando soluções locais para dificuldades da vida em comum em termos econômicos e de governança – mesmo quando os próprios moradores não possuem esta consciência –, em contextos metropolitanos cada vez mais populosos, que se afastam do modelo ocidental europeu da cidade moderna do início do século XX.

Passei a perceber a favela não mais como problema social, mas como um tipo de produção de localidade que possui um ‘enraizamento’ sociocultural próprio.

Assim, em determinado momento, passei a perceber a favela não mais como “problema social”, mas como um tipo de produção de localidade que possui um “enraizamento” sociocultural próprio.

Não são, portanto, espaços e populações que precisam ser beneficiadas por regimes de ordenamento ou mesmo “pacificadas”, “civilizadas”, mas, antes de tudo, compreendidas em suas capacidades transformadoras e regeneradoras do próprio tecido social urbano em contextos metropolitanos de países como o Brasil, China, Índia e, sobretudo, países africanos.

Essa mudança de perspectiva não ocorreu naturalmente, mas resultou de um regime de proximidade “situado”, isto é, fundado na hospitalidade e no meu acolhimento como “moradora da favela” em diferentes ocasiões nas quais me “submeti” aos códigos locais.

Percebi, ao longo do trabalho de campo, que os conflitos estão sempre presentes, na maior parte das vezes resolvidos ali mesmo, com o apoio de lideranças locais, oficiais (Associação de Moradores) ou não.

O que aprendi é que entre ambiguidades e conflitos, a vida na favela segue. As pessoas vão encontrando meios para torná-la viável a partir de uma organização social própria, concebida com base em lógicas e valores próprios que, na maioria das vezes, se opõem às perspectivas e anseios “oficiais” propostos pelo Estado – pautadas em uma linguagem ética. Existe um tipo de mercado local – podemos chamá-lo de “criativo”, “alternativo” ou “colaborativo”.

Convido o leitor a apostar nas incertezas e descortinar certos estereótipos.

As “economias de compartilhamento”, no entanto, revelam mais do que técnicas e arranjos para suprir necessidades. Elas expõem os fios que formam a malha social da favela, com seus valores morais, suas dificuldades e também suas histórias de superação.

Elas existem porque se constituíram como um valor importante dessas populações, tornaram-se uma lógica não apenas alternativa ineficiência do Estado, mas, talvez, uma lógica alternativa contra a lógica estatal.

Nem tudo que parecer ser é.

Nem tudo que é parece ser.

Procure ver de perto e de dentro, busque traduções reais, vivências genuínas e aprenda a comunicar com a maior parte da população, usando a autenticidade como mote principal da sua narrativa. Vai lá e testa, depois você me conta.